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Investigação revela que associações da PM tramaram greve no ES

As tendas usadas em frente a um batalhão de Cariacica durante a greve da Polícia Militar, em fevereiro, foram solicitadas a uma empresa pela Associação de Cabos e Soldados (ACS). Foi o que constatou um inquérito conduzido pela 26ª Promotoria Cível de Vitória, que aponta indícios de que por trás da idealização e da organização do movimento estão as associações que representam os militares.

Em um documento, que está anexado ao inquérito e que A GAZETA teve acesso com exclusividade, é relatado que, no dia 3 de fevereiro, o diretor social de relações públicas da Associação de Cabos e Soldados (ACS), cabo Thiago Bicalho, solicitou à empresa “o empréstimo de algumas tendas”. Elas seriam utilizadas no 7º Batalhão da PM, localizado em Cariacica, durante o final de semana, em “um evento”.

Ocorre que aquele foi o final de semana em que a greve foi iniciada. A paralisação começou no Destacamento da Polícia Militar em Feu Rosa, na Serra, exatamente no dia 3 de fevereiro. No dia seguinte, o movimento ganhou corpo e se espalhou pela Grande Vitória e pelo interior do Estado.

Segundo o documento, no dia agendado para a devolução das tendas, 6 de fevereiro, o material não pode ser recolhido no 7º Batalhão. “Fomos impedidos de forma hostil pelos integrantes do movimento”, explicam os empresários.

Diante disso, decidiram acionar quem tinha encomendado o material. “Entramos em contato com o cabo Bicalho e relatamos o problema. Este prometeu resolver a situação”, contam. É informado que as tendas só puderam ser recuperadas no dia 22 de fevereiro, ao fim da greve.

O documento acrescenta ainda que as tendas foram “emprestadas” para os militares porque já havia uma relação de confiança com a corporação.

A paralisação ocorreu entre os dias 4 e 25 de fevereiro. A informação inicial era de que se tratava de um movimento promovido pelos familiares de militares que, insatisfeitos com as condições de trabalho dos policiais, bloquearam os acessos às unidades da PM, impedindo a saída de viaturas.

Nesse período, os familiares se abrigavam em tendas instaladas nas portas das unidades militares.

Com o passar dos dias, entretanto, os próprios policiais se aquartelaram.

O caos tomou conta das ruas. Sem policiamento, as cidades se transformaram em um cenário de guerra, com assaltos, furtos, roubos, mortes e saques. Foi necessária a vinda de tropas federais para realizar o patrulhamento. No período, 219 pessoas foram assassinadas.

ACUSAÇÕES

Agora, 10 meses após a paralisação, além do diretor da Associação de Cabos e Soldados (ACS), lideranças de outras associações que representam os militares também são alvo de investigações. Um deles, o soldado Maxson Luiz da Conceição, que preside a Associação Geral dos Militares (Agem), foi expulso da corporação. Foi acusado de “incitar os policiais militares ao aquartelamento por meio de vídeos e postagens em redes sociais”.

Outro indiciado por crime militar e transgressão disciplinar foi o presidente da Associação dos Oficiais Militares (Assomes), o tenente-coronel Rogério Fernandes de Lima. A investigação concluiu que nas manifestações feitas à imprensa ele defendeu, entre outros temas, a anistia a PMs que participaram da greve; a expectativa de reposição salarial dos militares; e fez críticas ao governo do Estado e ao comando da PM em matérias sobre o Dia do Soldado.

A associação que Fernandes preside enfrenta ainda outra dificuldade. Teve as contas do primeiro semestre de 2017 aprovadas com ressalvas em decorrência do uso de verbas de publicidade. Foram usados quase R$ 100 mil acima do previsto no regimento.

Também é alvo de um inquérito militar o presidente da Associação dos Bombeiros Militares (Abmes), o subtenente Sérgio Assis. Ele aparece em um vídeo, com líderes de outras associações militares, onde relata apoio aos familiares dos policiais durante a greve. A investigação apura se as afirmações podem ser consideradas incitação ao movimento grevista.

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