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Campanhas de políticos do ES foram ‘turbinadas’ por fakes, diz BBC

Reportagem publicada nesta sexta-feira (08) pela BBC Brasil revelou que campanhas eleitorais de vários políticos brasileiros teriam sido beneficiadas com serviços de uma empresa que teria manipulado a opinião de usuários de redes sociais na disputa de 2014. São citados três nomes do Espírito Santo: o do governador Paulo Hartung (PMDB), o do senador Ricardo Ferraço (PSDB) e o do secretário estadual de Desenvolvimento Urbano, Rodney Miranda (DEM).

A BBC entrevistou quatro pessoas que se disseram ex-funcionárias da Facemedia, instalada no Rio de Janeiro. Também obteve o histórico de atividade de mais de 100 supostos fakes e conseguiu identificar 13 políticos que teriam usufruído da atividade.

Ferraço e Rodney contrataram a empresa, mas alegam que apenas para “estruturar o uso das mídias sociais” ou “criar páginas de web”. Hartung diz que “nunca contratou ou utilizou qualquer tipo de ação de internet neste sentido”. O texto da BBC deixa claro não haver evidências de que os políticos soubessem da prática. Especialistas ouvidos por A GAZETA sobre a estratégia descrita afirmaram que ela pode ser interpretada como crime.

O dono da Facemedia, Eduardo Trevisan, teria começado a criar um exército de perfis falsos, ainda em 2012. Para isso, contratou “até 40 pessoas espalhadas pelo Brasil” para administrar contas de perfis e atuar principalmente em campanhas eleitorais. Um ex-funcionário dele citou uma longa lista com políticos que teriam contratado o serviço, entre eles Hartung, Ferraço e Rodney. Todos fazem parte do mesmo grupo político e foram citados em algum momento pelos perfis falsos identificados pela BBC Brasil.

A grande inovação do serviço, de acordo com a reportagem, é a atuação dos “ciborgues”. Mais do que apenas fakes, robôs ou “bots” – que só lançam informações automaticamente em grande escala -, esses “ciborgues” misturam o trabalho de máquinas com o de pessoas de verdade por trás dos computadores.

Grosso modo, vários perfis falsos são criados, mas sempre imitando páginas de pessoas reais, com filhos, gostos, hábitos e opiniões. Em seguida, pessoas contratadas assumem essas páginas e começam a criar vínculos estratégicos nas redes sociais. Se, por exemplo, um político precisa mudar sua imagem com a população mais jovem, os perfis podem acessar grupos dessas pessoas no Facebook para interagir com elas.

A BBC identificou um grupo contra Renato Casagrande (PSB), candidato ao governo do Estado em 2014, criado por “Deborah Mendes”, que usa foto de perfil retirada de um banco de imagens e é um dos perfis que seriam ligados à Facemedia. Ela até adicionou um funcionário da empresa ao grupo.

A reportagem cita o caso de uma pessoa contratada para gerenciar 20 perfis. Pelo serviço, recebia R$ 1,2 mil por mês.

“Tínhamos o problema de robôs no Twitter. Eles criavam ‘trending topics’, mas não interagiam com as pessoas. A nova estratégia mostrada pela reportagem é inserir perfis falsos para interagir e criar ondas de opiniões para influenciar grupos de opinião. É uma estratégia muito mais maliciosa”, disse à Gazeta o professor de Gestão de Políticas Públicas da USP Pablo Ortellado.

Perfil "Deborah Mendes" no Facebook apontado como fake em reportagem da BBC Brasil
Perfil “Deborah Mendes” no Facebook apontado como fake em reportagem da BBC Brasil
Foto: Reprodução

Especialistas avaliam que a prática, se disseminada no ano que vem, pode ameaçar o equilíbrio eleitoral. Ortellado destaca que existem estudos apontando que as pessoas tendem a aderir a ondas de opinião.

“Imagine as pessoas orquestradas para bombar determinado boato. Só estou especulando porque, na verdade, a gente não sabe o tamanho do problema. Por sua própria natureza, ele é feito para não ser detectado. Podemos falar facilmente em milhares de perfis falsos”, comentou o professor da USP.

Um dos entrevistados pela BBC, o coordenador do Laboratório de Estudos sobre Imagem e Cibercultura (Labic) da Ufes, Fábio Malini, é menos pessimista sobre os impactos em 2018. Avalia que jornalistas e cientistas de dados estão mais preparados para checar fatos e identificar comportamentos. No entanto, concorda que os “ciborgues” podem, sim, criar “efeito manada”, se bem trabalhados. Ou seja, direcionar correntes de opiniões.

“Se as pessoas começam a ver que entre os comentários há certa tendência, elas interpretam determinado comentário como derrotado, vencido, como algo que não vale muito. Seria como, numa discussão de bar, uma pessoa ter um posicionamento diferente e, de repente, outras dez incessantemente ficarem contra a opinião dela”, exemplificou, ao ser procurado pela reportagem.

Isso inibe a pessoa de falar algo que vá contra a corrente e ela prefere não comentar nada. É a chamada espiral do silêncio.

PROBLEMAS LEGAIS

Criar perfis com nomes e fotos de outras pessoas e ainda usá-los para difamar o adversário pode render problemas com a lei. De acordo com o advogado especialista em Direito Digital Rafael Maciel, somente o uso de um pseudônimo não deve gerar complicações, mas não é esse o caso dos perfis gerenciados por “robôs” ou “ciborgues” nas campanhas eleitorais. São justamente as imagens alheias que dão certa credibilidade aos fakes.

“Usar o nome de outro indevidamente se não for para estelionato ou obter vantagem ilícita não é crime. Mas tem repercussões no Direito Civil. A parte prejudicada (o verdadeiro dono do nome ou da imagem) pode pedir a retirada do perfil e uma indenização”, afirmou.

E a pessoa que foi ofendida por eventuais posts do fake? “Se houver crimes contra a honra (calúnia, difamação) o mais grave que pode ocorrer, na grande maioria dos casos, a pena é de um ano. O caso vai para Juizados Especiais e é imposto o pagamento de cestas básicas”, contou.

Já a também especialista em Direito Digital Patrícia Peck prevê um horizonte ainda pior para candidatos que pretendam lançar mão dessa estratégia, mesmo que o perfil fake não fale mal do adversário e sim apenas bem do candidato que pagou, direta ou indiretamente, pelas publicações.

“É uma prática desleal em termos de eleições, enganando os eleitores. Ao criar pessoas que não existem para me elogiar eu estou fazendo manipulação de opinião. As pessoas podem votar em alguém porque todo mundo está dizendo que é legal. O outro candidato pode levar a denúncia dessa ocorrência. Ele não é vítima de dano concreto porque não estão falando mal dele e, ainda durante a campanha, não chegou ainda ao final das eleições para dizer que isso alterou o resultado do pleito, mas ele pode levar essa denúncia ao TRE”, afirma Peck.

A resolução que vai nortear o procedimento a ser adotado pela Justiça Eleitoral no ano que vem, no entanto, ainda não foi publicada pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

Não é difícil imaginar que os candidatos acusados, ainda que o uso de perfis falsos seja comprovado, podem dizer que não têm nada com isso, que o usuário que fez os posts (ou a empresa que propiciou isso) agiu por conta própria. Mas, ainda assim, de acordo com a advogada, é possível haver questionamentos. No caso de um político que contrata uma empresa para gerenciamento de mídias sociais, Peck orienta que o ideal é incluir no contrato uma cláusula que diga que a empresa não deve se utilizar dessas artimanhas. Do contrário, o candidato que foi beneficiado, ainda que alegue não saber de nada, também pode ser responsabilizado.

“Se há alguém repassando uma informação falsa, o que também é errado, é manipulação de informação, mas é uma pessoa verdadeira. Mas se há vários perfis falsos fazendo isso, é toda uma estratégia baseada numa coisa antiética e ilegal”, resume a especialista.

As sanções a serem impostas pela Justiça Eleitoral ainda não estão claras, à espera da resolução do TSE, mas poderiam ser, por exemplo, a retirada dos perfis do ar, a proibição do candidato de usar a mídia em questão (como o Facebook) no restante da campanha e o pagamento de multa.

O QUE DIZEM OS POLÍTICOS CITADOS

Paulo Hartung

O governador Paulo Hartung (PMDB) negou ter contratado qualquer serviço para criação de fakes na internet, como indicou um ex-funcionário da empresa Facemedia. Em nota enviada por sua assessoria de imprensa, Hartung disse repudiar o uso de “qualquer tipo de mecanismo que utilize influência criminosa da tecnologia no processo eleitoral e no dia a dia das pessoas”.

“Não utilizou nem utiliza essa prática em sua estratégia de comunicação. Pelo contrário. Entrou com dezenas de ações judiciais na campanha porque foi vítima de perfis falsos que tinham o objetivo de desconstruir sua imagem e a de seus familiares”, diz nota enviada pela assessoria do governador.

O peemedebista, ainda por meio da nota, pontuou também que o professor da Ufes Fábio Malini, uma das fontes ouvidas na reportagem da BBC, foi condenado por criar um perfil falso para fazer acusações ao professor Sebastião Pimentel, em 2011, que disputava a eleição para reitor da Ufes.

“O professor Fábio Malini, uma das fontes da matéria, foi condenado pela Justiça de primeiro e segundo graus por utilizar página apócrifa na campanha para reitor da Ufes para criticar um candidato, de acordo com decisão judicial no processo número 0017539-88.2012.8.08.0024”, acrescenta a nota.

Malini afirmou que não participou da apuração da reportagem e que foi ouvido pela repórter por “estudar o assunto e ter um trabalho de análise do comportamento político eleitoral”.

“Não entendo a citação a mim porque o nosso estudo, em nenhum momento, cita o governador. Foi a repórter que apurou todo esse processo. Se o governador quer atacar um professor universitário, isso é da vontade dele. Não tenho nada a responder. O processo (mencionado na nota do governador) está em recurso. É inacreditável que um governador de Estado desqualifique o trabalho da imprensa tentando desqualificar um professor universitário que fez um estudo que não citou o nome dele”, contou.

Hartung lembrou que foi “vítima de ataques de perfis falsos” e que entrou com “dezenas de ações judiciais na campanha”. Uma dessas ações diz respeito à criação de uma página falsa que imitava o Gazeta Online, em 2014, que foi ao ar um dia antes do dia das votações, invertendo o resultado de uma pesquisa eleitoral feita pelo portal, colocando o ex-governador Renato Casagrande (PSB) à frente de Hartung.

O governador diz que a estratégia do uso de fakes também foi usada durante a greve da PM para inflamar o movimento no Espírito Santo. Ele ainda reforça que é preciso leis para impedir que essas ferramentas possam contaminar o processo eleitoral.

Ricardo Ferraço

O senador Ricardo Ferraço disse que a empresa de Eduardo Trevisan prestou serviços de assessoria para o gabinete, a fim de estruturar o uso de mídias sociais. Os serviços, segundo ele, eram contratados para “diagnóstico, monitoramento de redes e consultoria de conteúdo de postagens”. Ele lembra que no período, em 2012, não disputou eleição.

“Jamais foi contratada, solicitada ou autorizada qualquer estratégia de comunicação que não fosse legal e ética. Nunca orientei ou tive informação de que tal empresa se valia de algum expediente que não os legais e éticos, muito menos com a utilização de perfis fakes na internet, prática que repudio com veemência”, afirma.

De acordo com a prestação de contas do senador, ele pagou entre maio e dezembro de 2012 – período de pré-campanha e campanha das eleições municipais daquele ano – R$ 27 mil a Trevisan para serviços de “assessoria de comunicação digital para o gabinete, com o objetivo de estruturar o uso de mídias sociais”. A despesa foi paga pelo Senado.

Rodney Miranda

Já a assessoria de imprensa do secretário de Desenvolvimento Urbano do Espírito Santo, Rodney Miranda, informou que “desconhece a atuação da empresa mencionada e ratifica que o trabalho de redes sociais desenvolvido à época foi feito por apoiadores do então candidato”.

Ao notar que a empresa constava na prestação de contas de Rodney em 2012, quando se candidatou à Prefeitura de Vila Velha, com o nome de “Passos e Trevisan Serviços LTDA”, voltamos a questionar a assessoria de Rodney Miranda. Segundo o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), foram dois pagamentos, de R$ 20 mil e R$ 45 mil para a empresa, em agosto e outubro de 2012.

A segunda resposta enviada pela equipe do secretário foi a seguinte: “A assessoria de imprensa informou que o então candidato sempre pautou sua vida pública pela ética e pelo combate a ilegalidade e repudia o uso de qualquer mecanismos criminosos. Lembra inclusive, que foi vítima de ataques nas redes sociais e através de panfletos apócrifos, que resultaram em diversas ações judiciais e algumas condenações contra seus adversários à época, tanto em 2012 quanto em 2016, as últimas eleições que disputou. Esclarece ainda que nunca sofreu qualquer acusação sobre práticas ilícitas pela internet ou outro veículo de comunicação, nem respondeu a qualquer processo na Justiça por conduta ilegal. Finaliza informando, que a empresa foi contratada para criação de páginas na web, como comprova a prestação de contas junto ao Tribunal Eleitoral, devidamente aprovada por este”.

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